“se fôssemos à praia?”
não gosto de praia. “vamos só à tardinha… ver o pôr do sol.”
já a frescura mansa do mar percorria o areal quando chegámos. sem trocarmos uma palavra dirigimo-nos para a zona mais recatada da praia. a orla das dunas a resguardar-nos as costas do vento.
dobras os joelhos, cinges as pernas nos braços, enterras os pés na areia. deleitada.
por minutos observamos o mar. em silêncio. dos grupos de pessoas dispersos na distância apenas nos chega um ou outro riso indistinto intercalado pelo rebentar periódico das ondas.
olhas-me demoradamente. de súbito levanta-se um vento incómodo que insiste em arremessar areia pelo ar. escondes a cara nos meus braços. “contigo aqui o sol bem podia nunca se pôr”, ouço-te dizer.
deixamo-nos ficar. para lá das dunas a vila anoitece. acendem-se os primeiros candeeiros públicos. o jantar pode esperar.
podíamos correr praia fora. mergulhar nas ondas cada vez mais sombrias. deixar os corpos a escorrerem sal desabarem na calidez da areia. numa vertigem. esticando os incontáveis fins de tarde de julho que nunca tivemos.
mas não. deixamo-nos ficar. o sol misturado no vento como ouro gasoso a sulcar o teu cabelo. revolto. o rebentar das ondas. compassado. sabes?
contigo aqui o sol bem podia nem sequer existir.

05.July.13 03:15
Deixaste-me boqueaberto. É das raras vezes que te vejo produzir um texto tão longo, e valeu mesmo a pena a leitura. ;)
05.July.13 08:11
não poderia estar descrito de uma forma melhor.
aguardo que o sol se volte a pôr.
05.July.13 09:53
Enquanto escreves sobre o entardecer eu escrevo sobre o amanhecer.
Acho que a luz e a disposição desta época do ano propiciam a estes jogos de esconde-esconde com o sol e a lua.
ADOREI.
05.July.13 18:55
sim, é isso. :)
05.July.13 19:09
Bem sei que não costumo comentar aqui, pois prefiro fazê-lo pessoalmente. Mas desta vez não podia deixar passar a oportunidade.
É realmente um texto belíssimo, onde se reconhece a cumplicidade de uma relação vivida com calma, que nada tem a ver com a impulsividade cega que associo às paixões fugazes que hoje parecem ser a norma.
05.July.13 19:21
Gostei imenso do “contigo aqui o sol bem podia nunca se pôr”. E finalizares com “contigo aqui o sol bem podia nem sequer existir”, foi uma deliciosa antítese.
05.July.13 21:22
Que momento bonito… :)
Beijinho*
05.July.13 23:37
diria:”estás apaixonado?”.mas não digo, prefiro ler.
05.July.14 09:05
muito obrigado a todos por lerem. é com especial agrado que acolho os comentários suscitados por algo que se afasta largamente do meu estilo de escrita habitual.
05.July.14 11:32
…talvez tivesse de regressar, para lembar.
05.July.14 13:03
que romântico… que belo… tocou no coração =)
05.July.14 13:18
brilhante.
(foi a única palavra que me veio à mente quando li)
05.July.14 18:26
Tenho este grave problema de gostar muito ou nada dos textos que leio na blogosfera. Este foi uma bela surpresa! Gostei muito e não é difícil de adivinhar que estejas apaixonado! As melhores criações surgem num destes extremos: quando estamos de rastos ou quando a vida nos sorri; e ela parece sorrir-te - com ou sem sol!
05.July.14 18:36
:)
05.July.15 12:34
escreveste mas para mim foi mais uma das fotografia. não consigo parar de sorrir imaginando o bater dos corações :) *
05.July.15 19:05
É lindo, lindo, lindo…é a melhor fase de uma relacção…a que vem depois da paixão…é o encantamento…é tão bom sentir-se assim.
05.July.20 13:31
gostei muito de ler o texto….está simples e intencional :-)
05.November.08 21:23
eu não tinha lido ainda…
é lindo Paulo, de facto.
desejo que seja real.
*
06.January.09 23:36
ler-te 3 vezes e sorrir, sempre.*
06.January.21 00:20
“ahhhh, tão lindo” 2 vezes em 5 minutos!
escreve mais vezes porque nos levas direitinho ao mundo dos sonhos